ökupafiguërä

Visualizamos e sentimos na pele que existe uma guerra social. Estamos lutando todos os dias, tentando nos manter vivas e sãs, dentro dessa sociedade capitalista, hierárquica, racista e patriarcal. Esse último braço do sistema opressor apaga, silencia, tenta destruir as mulheres e as pessoas trans, e todos esses braços, juntos, reforçam o que nós queremos destruir: a exploração e a submissão. O patriarcado, nocivo às nossas vivências, dificulta e muitas vezes impossibilita a construção da nossa autonomia, delegando o controle sobre nossas corpas y mentes à ele mesmo. Resolvemos tomar esse espaço de volta, não esperar que nossa liberdade nos seja dada. Não pedimos licença, não negociamos, não “esperamos pelo melhor momento”. Entendemos que para a reconstrução de uma realidade diferente, há que ter coragem e força para fazer agora. Decidimos nos organizar entre nós, priorizar nossas questões e especificidades. Cansadas de atender as demandas dos homens e fazer parte de seus conflitos, decidimos mudar de rota para não mais submeter-nos ao apagamento e silêncio sobre o que vivemos. Protagonizamos nossas experiências e percepções de mundo, e entendemos como indispensável um espaço que se preocupe em ouvir y compreender essa luta. Mais que isso, espaços que potencializem nossas vivências.
A figueira surgiu em março de 2016. Um rompimento das portas e janelas, a construção de uma alternativa entre as alternativas. Adentramos esse espaço também porque ele estava ocioso, abandonado, sem gente a viver nele. Acreditamos na possibilidade de cada indivídux dentro e fora da cidade de agir diretamente a favor daquilo que acredita. De caminhar em direção ao seu instinto de liberdade, sem esperar de algum tipo de política de representatividade partidária, ou esperar pelos macetes da “democracia” para agir no presente. Atualmente, existem 40 mil casas abandonadas em Porto Alegre; e se existem tantas pessoas sem casa, como há tanta casa sem gente?
Também precisamos psicologicamente de um espaço para viver a autonomia, a autogestão, a coletividade, para nos fortalecer, nos organizar enquanto indivíduxs, e enquanto coletividade, fazer arte (ou não-arte), apoiar-se mutuamente. Coisas que muitas vezes nos foram negadas, ou nem sequer possibilitadas. E queremos continuar movimentando o espaço para que outrxs possam também ter a possibilidade de vivenciar esse tipo de experiência, nos fortalecermos juntxs. É impressionante o fato que não sabemos de nenhuma outra ocupação separatista (exclusiva para mulheres e pessoas trans) nesse vasto território que chamam Brasil. Queremos expandir a potência de destruição/reconstrução da vivência separatista para muito além do espaço físico que habitamos; que esse primeiro espaço ocupado entre tortas-monstrans-manas seja apenas a fagulha desse fogaréu.

– Apoio-mútuo, ajuda y suporte
Sabemos o quão difícil é viver o externo, o sistema. Assim, também observamos muitxs manxs que não têm algum lugar onde se refugiar, não têm onde cair. A figuera é um lugar que busca e tenta ser um espaço seguro para as manas y manes, tentando e aprendendo a não reproduzir aspectos sistemáticos de opressão. Além do espaço físico, também é um coletivo, e nos apoiamos mutuamente, todos os dias compartindo nossos anseios, nossas revoltas, nossos processos, e nos propomos a receber outras manas y manes, sempre buscando respeitar suas experiências y percepções. Todxs somos seres singulares, diferentes, irregulares; e acreditamos na potência do conflito, afinal, não somos y nem queremos ser massa uniforme.
Como retomamos nossa vida de volta, sem construir a nossa autonomia? A baia é um espaço precário, que necessita de reformas constantemente, então não é um lugar exatamente cômodo. Nós nos organizamos horizontalmente, sem patrão ou patrocínio; nos autogerimos, resolvemos nossos problemas com as nossas mãos, com os nossos braços e com as nossas cabeças. Todas as pessoas que transitam o espaço contribuem ativamente para a manutenção dele e fazem com que ele exista todos os dias. Essa forma de se organizar possibilita a resolução dos nossos problemas de outra maneira pra além do dinheiro.
Acreditamos no que as manas y manes, monstras possam fazer para cambiar suas vidas e suas formas de ver e experenciar as coisas. Acreditamos na alternativa à esse sistema, e queremos fazer agora. Porque sim, conhecemos a brutalidade da civilização hetero-capitalista-patriarcal desde nossos corpos, e não aceitamos a limitação da categoria de vítimas desse sistema. Não estamos inertes, e buscamos a propagação da movimentação que buscamos. Somos agentes da contrução do que queremos viver. Te convidamos.