\\ poezia pré-apocalyptica \\

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“casin”

escuto os lamentos que saem da minha alma.
quero ouvir as histórias, contadas na fogueira, que catamos ao anoitecer
a caminho do som que irrompe o cântigo, mulheres balançando a cabeça,
tocando, cantando. hoje não tem lua. mas tem a rua, viva. na madrugada
mais ainda, conecta nossos caminhos sem despedidas.
as cantigas, de amor ou ódio, ou de um sentir inócuo, avassalador.
transformador. a noção de produtividade não trás dor.
expurgando os limites, não delimitando coisas dentro da corpa, sentindo
como ela funciona, se enxerga, olha! Cuidado com a mana que tá la dentro
ou lá fora. a união de nossas vozes, de nossos olhares, trovoada
palpitação. o instante junta nossas mentes, estreita a conexão.
sutilmente. intenso, mas diferente do que foi vivido até então.

— cruA

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“o sono [parte III]”

todo o peso do mundo
sobre o topo da cabeça
as palavras que dançam contra as paredes
toda a sede do mundo
muma boca cada vez mais seca

[enlouqueça, enlouqueça]

ele chega,
é uma onda gigantesca
derruba-se em camas d’água
enquanto um helicóptero dança,
cortando as ondas do colchão queimado;
a hostil vigilância
sobre o nosso frágil desajeitado telhado.

procuro sem sucesso um par de olhos pelo teto
no meio da nuvem de fumaça que se condensa
[enlouqueça, enlouqueça]
sempre por perto da onda gigantesca.

— katingueira

—-

nós vamos destruir tudo que você ama
e tudo que você chama “amor”
porque cê chama de “amor a pátria”
o que é racismo
cê chama de “amor a deus”
o que é fundamentalismo
cê chama de “amor a família”
o que é sexismo lesbohomofóbico
e cê chama transfobia de “amor a natureza”
cê chama de “amor a segurança” o que é militarismo
e o capitalismo cê chama de “amor pelo trabalho”
o que cê chama de “amor pela humanidade” é especismo
e esse seu “amor pela vida” na real é só um caso histórico de má-tradução
que conveniente chamar deus de ele
mas se liga; nós somos seu apocalipse
e o que cê chama de “amor pela liberdade”,
“pela justiça”, toda sua civilização
é assassinato, genocídio
que quer matar tudo que goza,
que luta,
quer matar a gente.
mas a gente vinga que nem erva-daninha
a gente sobre
vive!
tá vendo? já começou!
sente a pulsação vibrando
o chão: é o beat do nosso coração
porque a gente, que você amaldiçoa em nome do seu amor doentio y segregador
a gente que é amante,
a gente que vive y espalha amor.
#vidaslgbtqiimportam

— tate nascimento